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Aoetearoa: Uma viagem em busca da terra sem mal

Durante uma estadia em Aoetearoa (Nova Zelândia) a remadora e escritora Samantha Buglione faz um mergulho profundo na cultura Maori e seu amor pelas canoas
Canoa Waka
Conta a história que o povo Māori foi o primeiro a chegar à Aoetearoa (Nova Zelândia) em suas Wakas (canoas). Foto: Krista Rossow/ Nat Geo

Kia Ora!

Em Maori “Kia Ora” significa algo como: “Que a vida boa floresça”. No sentido literal, ”ora” refere-se a “estar vivo”.

Já a palavra “kia” é a ideia de potência, de crescimento, e transforma “ora” de substantivo a verbo; em vez de “vivo”, passa a ser “viver”, mas um viver adjetivado: um bom viver.

Que a vida boa floresça para todos nós, principalmente em tempos desafiadores como o atual.

Tive o privilégio e a sorte de conhecer um dos berços da cultura polinésia na Nova Zelândia e fazer parte de uma comunidade de remadores no sul da ilha, a Waka Abel Tasman além de ter aula com um dos melhores do mundo: Tupuria King.

Foi ali, pelo acolhimento e atenção, que entendi a força do “Kia ora” numa sociedade que não esquece seus antepassados: os Māori.

Samantha e Tupuria King.
Samantha e Tupuria King.

Ao ter a oportunidade de conhecer lugares e pessoas incríveis parece ser mais fácil perceber o quanto nós vivemos em um pais igualmente (senão mais) impressionante.

Um pouco dessa aventura, que, ao que tudo indica é apenas um primeiro capitulo de outras que virão, eu compartilho agora:

Aoetearoa: Uma viagem em busca da terra sem mal

Conta a história que o povo Māori foi o primeiro a chegar à Aoetearoa (Nova Zelândia) saindo de Hawiki com uma grande frota de Wakas (canoas).

Foi Kuramarotini, esposa de Kupe, a primeira pessoa a avistar Aoetearoa: “Uma nuvem, uma nuvem, uma nuvem branca, uma grande branca nuvem” ela teria dito. Essa frase está estampada no Te Papa, museu de Wellington.

A Canoa Maori

No Brasil, entre nossos guaranis, há a lenda da terra sem mal. Nômades, eles percorriam grandes distâncias por terra, os famosos caminhos nominados de Peabiru, que ligavam o Atlântico e o Pacífico, o sul ao norte, o centro às margens.

A pergunta que me surge, ao pensar nos Maori e nos nossos Guarani, é: o que nos faz entrar no mar sem ideia de continentes existentes ou andar pela mata em busca dos horizontes? Não é a nossa racionalidade material. Talvez seja o desejo, a falta ou simplesmente a sensação de que é o que deve ser feito.

Uma remada, uma busca

remando de canoa havaiana em Florianópolis
Samantha remando em Florianópolis, junto a seu clube de va’a: “Não é o tempo que legitima os amores, certo?“. Foto: Marina Coelho

Talvez minha ida para Nova Zelândia tenha um pouco dessa busca pela terra sem mal. Que, na realidade, só existe dentro de nós. E não significa um paraíso de prazeres ou bondade angelical.

A terra sem mal, como nos ensinam hoje os guaranis, em especial o seu Tupã, um nativo de uns 115 anos que vive em Biguaçu (SC), refere-se à habilidade em agir atentamente no mundo.

O bem e mal vivem em nós, segundo ele. Nas nossas ações e não nas nossas intenções. E isso é muito próximo do que experimentei na Nova Zelândia.

De qualquer forma, muito diferente das tradições que conhecemos e das pessoas que reverenciamos, meu tempo na canoa é pouco se pensarmos no tempo como uma linearidade cronológica.

Se a canoa polinésia existe há mais de 3 mil anos, não faz nem dois anos que comecei a remar na Kanaloa va’a em Florianópolis, quando pela primeira vez peguei um remo e ouvi falar em sincronia na canoa.

Mas não é o tempo que legitima os amores, certo? Foi lá que a relação com a canoa nasceu e segue crescendo.

Em certa medida inspirada pelo empenho do clube em aprender e ensinar a cultura, a filosofia e os arquétipos das tradições da canoagem polinésia.  É preciso destacar o trabalho dos ‘coach’ Alexey e do Antonio e de parceiros de outras bases como o Augusto e a Luiza.

Retratos da cultura Maori em Aoetearoa
Retratos da cultura Maori em Aoetearoa. Foto: Samantha Buglione

Em Maori amor é “te aroha” que tem um sentido muito próximo ao de cuidar, de desvelar-se e de atenção. “Amar é estar atento para si e para o outro”. Essa frase não é minha, mas concordo totalmente com ela.

Foi o Sean Dalany, de Motueka, professor de artes marciais Maori e com quem tive a honra de conversar e ter uma aula, quem mais falou em amor. Para um guerreiro Maori o mais importante é o amor.

O guerreiro é aquele que cuida. E os movimentos da arte da guerra são muito semelhantes aos dos tempos de paz. É incrível a semelhança entre os movimentos da “Taiaha” (que lembra uma lança) com os movimentos do remo na Waka.

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Por sinal ambos, quando não estão sendo usados, ficam com as “pontas” para cima, nunca para o chão. Isso não apenas por razões pragmáticas de não diminuir a eficácia da arma ou da pá, mas porque essas extremidades são onde habitam os antepassados.

Nessa arte do cuidar, para a cultura Maori, os outros são o todo. Um poema Maori diz que o mais importante são as pessoas. E as pessoas são esse todo.

A sincronia não está só na canoa

Não há uma seletividade de mais ou menos importantes. São eles homens e mulheres, a natureza, os vivos e os mortos. Um todo integrado e em sincronia.

A sincronia não está só na canoa, ela é parte de um gesto, de uma forma de estar no mundo. Um masculino e feminino, um passado e um futuro presentes, sem as dicotomias cansativas dos nossos dias. Tudo isso regado a muita, muita vontade e coragem.

Não foram poucos os que morreram na resistência e no desafio de preservar a própria liberdade. A coroa britânica se rendeu aos Maori num acordo de paz mal escrito e que gerou mais revolta (Tratado de Waitangi, assinado em 1840).

O resultado foi a típica imposição moral colonialista e uma geração proibida de falar a língua materna. Mas o espírito guerreiro-cuidador preservou a língua, a moral, a forma de estar no mundo.

Hoje, tudo por lá parece renascer em força, forma e hábito. Como se tivessem passado apenas por um inspirar, um tempo de resguardo.

Mapa com as rotas polinésias
Rotas polinésias. Foto: Samantha Buglione

Diferente de nós, ocidentais sem muita memória das nossas próprias origens canoeiras, os Maori e os habitantes de Hawaiki, não tinham um único nome para oceano. Havia, porém, vários nomes para os tipos de ondas.

O nome Pacífico, dado por um explorador inglês, era Moana visto de diferentes formas a depender dos ventos, da estação, da lua e de algo que nos foge aos sentidos. Somos nós que insistimos em catalogar o mundo e engessá-lo em certezas.

Talvez por essa consciência de que vida é movimento em cada entrada e saída do mar os Maori, e aquelas que vivem na sua esteira, tem uma “Karakia”, que pode ser compreendida como uma prece ou um pedido ou um intento, uma reverência e um agradecimento.

Ritual do "Hongi
Ritual do “Hongi”.

Em todo o momento o tempo, que não é linear, é ritualizado no “Hongi”, um cumprimento em que torna o passado presente, o presente atento e o futuro fruto na minha ação no agora. 

O “Hongi” junta testa com testa (antepassados), aproxima os narizes (os vivos-presentes) e nos faz respirar duas vezes o mesmo ar (ação de unidade).

Segundo Lee Anne e o Todd, que coordenam a base Waka Abel Tasman e com quem tive a sorte de conviver por muito tempo, não é possível aproximar-se de alguém dessa forma se não estiver em paz consigo e com outro.

Eu até posso apertar as mãos, mas eu não consigo ficar tão perto se algo na minha alma não estiver bem.

Respirar o mesmo ar é algo realmente intenso. Ainda mais em tempos de medo generalizado. É quase um ato subversivo. Algo que, pelo visto, os Maori seguem nos ensinando.

Waka Abel Tasman

Abel Tasman, Aoetearoa (Nova Zelândia)
Abel Tasman, Aoetearoa (Nova Zelândia). Foto: Samantha Buglione

Abel Tasman é uma linda reserva ao sul da Nova Zelândia, o nome é de um holandês que chegou antes dos ingleses, foi o primeiro europeu a aterrissar por lá.

É possível encontrar um parque e uma reserva marinha, um clube e uma base de canoa. Lá a canoa, chamada de Waka, tem sempre dois públicos principais, o turista e os locais.

Aos turistas o passeio é mais suave e a ritualística mais intensa. Aos locais tem os passeios e os treinos para os times e a ritualística do cotidiano. 

Eles se organizam em empresas e clubes. As empresas têm um perfil mais de negócio enquanto os clubes de manutenção da cultura visam garantir o acesso à prática da canoa ao maior número de pessoas.

Há, por exemplo, aulas gratuitas de Maori. Antes de vir embora uma escola pública de Nelson contratou o Waka Abel Tasman para que todos, absolutamente todos os alunos, tivessem aulas de Waka / canoa.

Se no sul eu pude viver mais perto a cultura; no norte tive um intensivo de técnica com o Tupuria King.

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O que gostei da aula com ele não era tanto o fato dele ser hoje um dos melhores do mundo, mas o quanto isso é resultado de um empenho. Ele fez mestrado para estudar a mecânica do movimento humano na canoa, comparar técnicas, eficiências etc.

Aoetearoa
Te Papa Tongarewa museu.

Aliou ciência a tradição e não parou de se aperfeiçoar. Isso é encantador na canoa, não existe “o lugar” de chegada, existe movimento, existe uma perfectibilidade constante que está expressa no caráter, na remada, mas, principalmente, na postura fora da canoa.

O mais legal dessas viagens é perceber que vivemos em um lugar privilegiado. O Brasil tem em si uma abundância sem equivalentes no mundo. E nossos/as professores/as são realmente muito bons/boas. Talvez nos falte consciência disso. Da nossa beleza e abundância.

Talvez a Nova Zelândia ganhe de nós no quesito cuidado, igualdade e não violência. Um cuidado que incentiva os atletas e garante condições para tornarem-se quem podem ser, sem julgamentos precoces ou limitações financeiras, morais ou de qualquer outra natureza.

Como mulher é impressionante andar por um lugar em que não é preciso ser a chata porque a igualdade está ali, transpirando. Piadas misóginas que são cotidianas aqui não fazem sentido por lá. E isso é realmente algo que poupa nossa energia.

Nesse cuidado com os fundadores do lugar há reverência a todos. Tudo, absolutamente tudo está escrito em Maori e Inglês, duas das línguas oficiais.

O pressuposto de que não somos donos de nada, apenas temos a posse temporária e nos cabe garantir que as gerações futuras encontrem a “casa” tão bem ou melhor do que a recebemos torna a Nova Zelândia de hoje um lugar absurdamente atento a produção de alimentos, aos cuidados com a água e com o lixo.

Essa forma de cuidado e reverência a todos está, realmente, permeando várias esferas das relações sociais. É nesse sentido que o caráter da Waka Ama não se reduz à canoa. A verdadeira tradição está nos detalhes cotidianos.

Só posso dizer que voltei muito interessada nos nossos nativos canoeiros. Eu mesma sou neta de uma nativa brasileira e de um europeu. Eu, como a maioria dos brasileiros, sou fruto dessas misturas.

Não temos uma cultura radical ou pura ou original do va’a, mas isso não é o mais importante.  O importante é saber como iremos integrá-las e como vamos honrá-las e honrar a nossa própria abundância e história.

Kia Ora!

Resumo de informações de “sobrevivência”

  • Passagem Brasil-NZ ida e volta média de 2.100 dólares americanos, idas pelo Chile ou Argentina, cerca de 13h no total (sem contar o tempo de aeroportos). Eu fui pela Europa, um voo de mais de 27h, pelo Brasil é mais barato e mais confortável.
  • Fiquei a maior parte do tempo hospedada com a Lee Anne e com o Todd do Waka Abel Tasman, em Motueka, cerca de 1h de Nelson. Lá eles têm um espaço no estilo Airbnb.
  • Integrei totalmente a dinâmica doméstica e profissional, de acordar cedo a lavar coletes e arrumar tudo no final do dia e fazer moqueca brasileira com dendê para eles! Eles me garantiram hospedagem, comida, roupa lavada, muitas, muitas remadas, acesso a aulas, tradições, passeios e aos seus conhecidos: artistas, professores, amigos. O custo final ficou muito mais em conta do que se fosse pagar a integralidade de tudo. Foi uma sorte e um presente.
  • Em Auckland e Wellington é possível encontrar hostel com quarto privativo por uns 60 dólares neozelandêses; quartos com mais camas se encontra até por 20 dólares neozelandêses.
  • Eu viajei sozinha, foi a primeira viagem sem filhos e marido depois de uns 9 anos, então foi um misto de férias com caminho Peabiru e mapeamento para uma próxima. Porque a ideia é voltar.
  • A Lee Anne e o Todd querem montar um “Camp intensivo de canoa” para quem quiser. Se alguém quiser saber mais me chama no insta: @samanthabuglione
  • O remo tradicional deles é o TaiPaddle e é realmente maravilhoso. O valor para o remo de propulsão é cerca de 430 dólares neozelandêses.
Para saber mais: @samanthabuglione / @Wakaabeltasman / @native_arts_aotearoa / @kanaloavaa.
Samantha Buglione é escritora, filósofa, doutora em ciências humanas, canoeira, neta de cabocla e apaixonada por fazer leme.
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