Crônica da remada | O melhor pai do mundo

A relação de amizade e admiração de um filho por seu pai inspirou Roberto Melchior a escrever essa bela crônica desenvolvida durante uma remada
“-Pai é pai, né pai!- disse o garoto, durante uma remada, desenvolvendo o seu primeiro diálogo filosófico diante de seu pai”. Foto: Reprodução

-Pai é pai, né pai!- disse o garoto, durante uma remada, desenvolvendo o seu primeiro diálogo filosófico diante de seu pai, um gigante descomunal, capaz de destruir montanhas, arrastar navios, parar o tempo, enfrentar monstros, afugentar o medo e proteger o mundo de todos os males que existem e aqueles que sequer foram inventados.

Para uma criança, seu pai é um Porto Seguro, a calma diante da tempestade que se aproxima e desfigura o mundo, os tratados e o universo de coisas reais e imaginárias.

Os heróis das histórias em quadrinhos e os super-heróis dos cartoons televisivos sucumbem diante de pais que inadvertidamente, desafiando a ordem natural das coisas, abandonam o anonimato e transformam-se em peças fundamentais de uma engrenagem, na qual, carregam o poder de alterar as leis do Universo.

-Meu pai é o melhor pai do mundo!- disse o mesmo garoto da conversa anterior enquanto carregava bolinhas de gude multicoloridas em uma meia de crochê que achara por aí entre uma aventura e outra desbravando as galáxias.

-Não, não é!

-Claro que é!

– Não! Meu pai é o melhor pai do mundo.

-Para de falar besteira. Teu pai não pode ser o melhor pai do mundo.

– E porque não?

– Por que meu pai é o melhor pai do mundo.

– Vocês estão brigando? – perguntou um terceiro elemento, 20 centímetros mais baixo 50 centímetros mais gordo e 15 minutos mais tarde.

– Não! A gente tá fazendo conversa de gente grande, mas, ele não consegue entender que meu pai é o melhor pai do mundo.

– Mas, o mundo é bem grande, vocês não precisam brigar. Teu pai pode ficar com uma parte e o outro pai fica com a outra.

Os dois garotos entreolharam-se, visivelmente interessados na ideia e dispostos a abandonar aquela conversa de gente grande.

– É mesmo né!

-Eu também acho e aí a gente pode brincar de carrinho.

– Posso brincar também? – perguntou o garoto recém-chegado.

Um dos garotos aproximou-se, colocou a mão no ombro do menino que chegara 15 minutos depois, 50 centímetros mais gordo, 20 centímetros mais baixo e com 15 palavras no bolso do lado esquerdo de um casaco surrado no qual se lia:

You can do whatever you want.

– Seu pai também é o melhor do mundo?

Houve um silêncio, daqueles incômodos que rasgam os minutos, virando-os do avesso, naufragando os segundos e conduzindo os escombros ao esquecimento como uma nau perdida em noites de tempestade e névoa.

– Eu não sei. . . meu pai morreu no dia em que eu nasci.

Naquele instante em que a frase atravessou o universo das brincadeiras, do encantamento, do riso fácil, da diversão, e, desgovernada descarrilhou na curva em que os sonhos envelhecem, enrijecem, e, logo, são como estátuas de pedra, cobertos pelo limo, folhagens e ervas daninhas enraizadas na alma, um dos garotos deu um longo suspiro, uma lágrima ficou valsando no ar e alguém disse:

– Seu pai também é o melhor pai do mundo.

Logo, os três se abraçaram e o garoto que chegara depois, muito, muito tempo depois, sentindo-se fortalecido pelo abraço e pelo carinho dos amigos, disse:

– Eu sei. . . eu sempre soube.

Sem que soubessem, aquelas crianças, naquele instante, haviam amadurecido mil anos caminhando em direção ao futuro.

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