Entrevista | Marçal Leme da Costa, o guerreiro de Caraguatatuba

Medalha de prata no Sul-Americano de Surfe Adaptado, realizado na Argentina, Marçal Leme da Costa troca uma ideia com nosso editor onde conta um pouco de sua história e suas batalhas
Marçal em ação nas ondas do litoral norte de SP. Foto: Fabio Ramos
“Caiçara da gema”, Marçal Leme da Costa levava uma vida saudável em sua cidade, Caraguatatuba, no litoral norte de SP. Praticava esportes e tinha uma carreira profissional encaminhada.
Tudo isso mudou após um acidente com sua moto na rodovia SP-55 quando, ao derrapar numa poça de óleo, colidiu de frente com um caminhão. Marçal ficou entre a vida e a morte durante um mês, mas sobreviveu. Essa primeira batalha, no entanto, deixou sequelas e ele precisou amputar a perna esquerda e perdeu totalmente os movimentos do braço no mesmo lado do corpo.
Era o início de uma nova realidade, repleta de desafios, e Marçal escolheu encará-los de frente.
O desejo de superação é seu maior trunfo e Marçal, apesar das limitações e dificuldades, tornou-se um dos maiores para-surfistas do Brasil, conquistando, na última semana, a medalha de prata no Sul-Americano realizado na Argentina.
Na entrevista a seguir ele conta um pouco de sua história.
Com garra, positividade e criatividade, Marçal Leme da Costa tornou-se um dos maiores para-surfistas do Brasil. Foto: Fabio Ramos

Você surfava antes de sofrer o acidente de moto que mudou a sua vida para sempre?

Sim, mas estava iniciando nesse esporte e era um surfista muito ruim!

E como surgiu a ideia de ir para o mar, dessa vez como atleta adaptado?

Depois do grave acidente de moto, onde perdi a perna e todos movimento de um braço, comecei a ficar com depressão por achar que eu seria incapaz de fazer algum esporte. Gostava muito de ir à praia e com a ajuda de amigos e familiares, passei a entrar no mar. Um dia, vendo os surfistas, botei na cabeça e que iria voltar a surfar e então comecei a pensar em uma forma de viabilizar isso.

Como foi o processo de adaptação ao novo esporte?

A adaptação foi muito difícil por eu ter muitas dores no braço esquerdo. Eu não tenho nenhum movimento nesse braço, mas sinto dores 24h por dia. Então o primeiro passo foi usar uma tipoia para mantê-lo fixo a meu corpo. A prancha que eu uso é um SUP convencional. Mas nas primeiras tentativas notei que precisava de mais força no braço direito, pois ele emburraria todo meu corpo. Então comecei a pensar na concepção do remo adaptado que uso até hoje.

Marçal levando a bandeira do Brasil no pódio em Mar del Plata, Argentina, ocasião em que conquistou a medalha de prata no Sul-Americano de Surfe Adaptado. Foto: Mika Gurovich

Quem desenvolveu o remo adaptado que você usa?

A ideia veio em um sonho onde usava um remo que ficava fixo a meu braço. Acordei e fiquei com aquela imagem na minha cabeça. Então, entrei em contato com um grande amigo e levei um cano de PVC de esgoto, esses que são mais largos, e ele me ajudou a cortar o cano no formato de meu braço e abrimos a boca do cano com calor e ele a moldou até ficar no formato de uma pá de remo.

A sua prancha, é um SUP convencional ou tem algumas adaptações?

A prancha é um SUP 7’5” com apenas uma adaptação de uma cordinha que me ajuda a subir.

Como se deu seu início nas competições?

Foi em 2003, durante o Mundial de SUP em Ubatuba. Pedi uma chance para os organizadores e eles me colocaram na prova de Race e de Wave! Fiquei amarradão e até hoje não parei!

SUP Race? É com ele mesmo! Foto: Ale Socci/ Aloha Spirit Festival

Foi a partir daí que você deu início à carreira de competidor?

Sim! Hoje m considero-me um surfista adaptado profissional.

Que tal representar seu país no Sul-Americano de Surfe Adaptado e ainda conquistar a medalha de prata?

Foi uma grande luta conseguir participar do evento e representar meu país, pois estou há oito anos sem patrocínio. Porém, sabendo da minha luta para viabilizar minha participação no Sul-Americano de Surfe Adaptado, a Gzero me deu uma prancha e eu fiz uma rifa. Com o dinheiro arrecadado consegui fazer a viagem.

Hoje quais são as maiores dificuldades enfrentadas por você para se manter como atleta?

A falta de patrocínio às vezes me faz até pensar em parar de competir e apenas ficar no free surfe. Isto está me deixando bem triste, mas vou tentar mais um pouco.

Sim, o cara é muito casca grossa! Foto: Aleko Stergiou

O que a palavra “superação” significa pra você?

Superação significa acordar e saber que terei pela frente mil obstáculos e mesmo assim tentar. Se achamos que a vida está ruim, imagina a de quem está no hospital internado e sonha em ver o mar.

NOTA: A pesar da medalha de prata no Sul-Americano, Marçal segue sem patrocinadores e precisa arcar com boa parte das despesas para treinar e competir.

O atleta recebe apoios da Prefeitura de Caraguatatuba, na forma de um Bolsa Atleta, que, no entanto, não é suficiente para custear as despesas mensais de combustível para ir treinar em Ubatuba.

Outros apoiadores são Gzero Tech e Neco Carbone (equipamentos), Tio Coxinha , Pharma Dinâmica, Nádia Costa Nutricionista e OndaSup (suplementação e ajuda básica).

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About the author

Luciano Meneghello

Luciano Meneghello

Luciano Meneghello é Editor-chefe do Aloha Spirit Club. Pioneiro na produção de conteúdo direcionado a esportes de água como SUP, va'a e paddleboard, foi fundador da Revista Fluir Standup e do site SupClub e tem artigos publicados em diversos veículos do segmento, como revista Go Outside, Alma Surf, site Waves, entre outros.


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