A história dos clubes de canoa polinésia

Fundados no início do século XX os “Outrigger Canoe Clubs” desempenharam um papel fundamental no resgate da cultura polinésia e na popularização do surfe em todo mundo

Os primeiros clubes de canoa havaiana da história moderna, como o pioneiro “Outrigger Canoe Club” (foto) também incorporavam outras modalidades de water sports como surfe, natação, SUP e vôlei de praia. Foto: Reprodução.

Durante séculos os polinésios não tinham muitas opções de transporte. Enquanto a maioria dos modos de locomoção, como caminhar, correr e nadar, não possibilitava percorrer longas distâncias, a canoa oferecia uma maneira rápida de transporte de pessoas, suprimentos e comunicação.

À medida que os anos passam, no entanto, o que antes era um veículo de sobrevivência tornou-se também uma excelente fonte de diversão entre os habitantes das ilhas, que naturalmente tinham uma relação íntima com o oceano, sendo o surfe (e aqui vale ressaltar: dentro de um contexto mais abrangente, ou seja, surfe com prancha, canoa e body surfe) o mais perfeito elo de ligação com o mar de uma forma lúdica.

Enquanto a grande maioria dos povos do planeta via o mar como uma morada de monstros, ou um caminho a ser explorado para novas conquistas, os polinésios enxergavam ali um grande amigo e protetor.

Foi através da canoas que deu-se início à povoação das ilhas do triângulo polinésio e é a partir delas que a identidade deste povo foi construída. Foto: Reprodução.

Os primeiros registros dessa relação de lazer entre os polinésios e o oceano foram feitos em 1777 pelo capitão James Cook, explorador, navegador e cartógrafo inglês, e também tripulante da primeira expedição ocidental a viajar pela polinésia.

Durante sua passagem pelo Taiti, Cook avistou os nativos em momentos de lazer utilizando canoas e pranchas de madeira para deslizar pelas ondas e fez aquele que seria o primeiro registro oficial da história da humanidade sobre a prática do surfe. E, sendo a canoa, o elo entre todas as populações da polinésia, não é de se admirar que essa atividade também fosse praticada em outras ilhas.

A REALEZA E O SURFE DE CANOA

Fala-se muito sobre o surfe por meio de pranchas de madeira praticado pela realeza havaiana, mas, pelo menos no Brasil, pouco se fala sobre o surfe de canoa. Este nem sempre era permitido aos plebeus. No Havaí antigo, as demonstrações de surfe de canoa estavam reservadas para os “Ali’i”, a realeza havaiana, e só eram liberadas “oficialmente” entre os plebeus em determinadas ocasiões, como torneios entre as tribos, por exemplo. Somente após o final do sistema havaiano “kapu”, em 1819, que os plebeus foram autorizados a participar livremente do esporte.

Detalhe da gravura intitulada “A View of Karakakooa, em Owyhee”, feita por um artista que acompanha a expedição de Cook. Foto: Reprodução / Smithsonian Cullman Library.

Qualquer bom rei ou membro da alta realeza deveria saber como surfar uma canoa. No entanto, se realeza tinha uma vantagem sobre a prática, os pescadores, por sua vez, eram considerados os melhores surfistas, muito em parte por seu admirável preparo físico (como você deve imaginar, lançar-se pelo mar aberto e voltar com uma canoa cheia de pescado era uma atividade que demandava uma tremenda força).

CULTURA SUFOCADA

Passaram-se os anos, vieram os europeus e muita coisa mudou. Mas alguns aspectos essenciais da cultura polinésia mantiveram-se vivos, ainda que a duras penas.

Não há muitos registros sobre o que acontecia em outras ilhas do triângulo polinésio, mas o Havaí, sem sombra de dúvida era a mais conhecida e cosmopolita de todas elas no final do século XIX. E isso não era exatamente uma coisa boa.

Aos poucos, foram-se extinguindo as tradições locais e a cultura nativa foi desaparecendo. Foto: Reprodução

Com atitudes de imposição e doutrinário de sua cultura, vários colonizadores oportunistas chegaram às ilhas sabendo de sua vasta riqueza e iniciando assim um processo de extermínio de toda a estrutura local, que era muito organizada.

Vários fatos aconteceram. Um deles foi a proibição da população em vestir seus trajes típicos, que segundo a religião católica e seus missionários protestantes, era ultrajante, pois eles andavam seminus. Rebeliões ocorreram, mas todas foram sufocadas (algumas de forma bastante violenta). Assim, aos poucos, foram-se extinguindo as tradições locais.

Os colonizadores deram o golpe final ao proibirem a prática do surfe, que não desapareceu por completo, mas foi relegado à atividade marginal e ilegal, sujeita a punição.

QUEBRA DE PARADIGMA

Deslizar sobre as ondas seguiu sendo visto com maus olhos pelas autoridades havaianas, até que uma demonstração de surfe, feita na Califórnia, em 1907, por George Freeth, um havaiano descendente de colonos irlandeses, iria mudar essa história.

A exibição de Freeth causou tanto impacto que ele foi convidado para a inauguração de uma estrada de ferro entre Los Angeles e Redondo Beach, onde novamente fez uma demonstração de surfe que ganhou as manchetes de um dos maiores jornais californianos com o título: “George Freeth, o homem que pode andar sobre a água!”.

Freeth tornou-se instrutor de surfe e este foi o início do resgate desta cultura ancestral. Em pouco tempo as atenções se voltaram para o Havaí, mais precisamente para a praia de Waikiki, em Oahu, onde o surfe aos poucos voltou a ser praticado mais abertamente atraindo pessoas de várias partes do mundo fascinadas com a oportunidade de ter um contato tão especial com o oceano.

SURGEM OS PRIMEIROS CLUBES DE CANOA POLINÉSIA

Nomes como Duke Kahanamoku (foto),  foram essenciais para o ressurgimento da cultura do surfe (em seu sentido mais amplo) que se deu através da criação dos clubes de outrigger em Waikiki. Foto: latimes.com.

Da tradição ocidental da organização de grupos e agremiações, e até como forma de se legitimar a prática do surfe, surge no Havaí o primeiro clube de canoa da história moderna: o “Outrigger Canoe Club”

Fundado em 1908 pelo ex-jornalista de Nova Iorque Alexander Hume Ford, o clube teve um papel importantíssimo na difusão do esporte. Ford também foi responsável pela publicação de um artigo intitulado “Riding the Surf in Hawaii”, em 1909, para a revista “Collier’s magazine”, levando ao conhecimento de milhares de pessoas o que seria a arte milenar polinésia de se deslizar sobre as ondas.

O Outrigger Canoe Club começou a funcionar em um lote de terra alugado por USD 10 em Waikiki. Duas cabanas de palha compradas de um zoológico nas proximidades cumpriam o papel de sede e guarderia.

Em resposta à criação deste clube, formado basicamente por não nativos, surgiu o Hui Nalu (clube das ondas) um clube para havaianos nativos na mesma praia que, na verdade, existia informalmente desde 1905, mas somente em 1911 oficializou-se como clube.

O clima entre ambos os clubes era amistoso e de respeito mútulo. Tal fato teve bastante relevância, pois era o surgimento de uma nova era para a população local, que ao mesmo tempo estava buscando suas raízes, seus costumes, fazendo com que sua cultura ressurgisse e se mostrasse ao mundo.

Entendia-se como “surfe” o ato de deslizar sobre as ondas, fosse de canoa ou prancha. Essa tradição foi mantida pelos clubes de canoa polinésia até que a explosão do surfe com pranchas (surf board) levou essa vertente a alçar voo solo. Foto: Reprodução.

O lendário Duke Kahanamoku, um dos co-fundadores do Hui Nalu, por exemplo, era também membro do Outrigger Canoe Club, reforçando esse clima de união e camaradagem. Estes dois clubes começaram uma competição amigável entre si, que abasteceu ainda mais a paixão na ilha de Oahu pelos esportes aquáticos.

Kahanamoku, que era um dos poucos locais de “sangue puro” de linhagem real havaiana, tornou-se medalhista olímpico e um dos grandes competidores de natação do time americano, e teve a excelente ideia de propagar a cultura dos clubes de outrigger havaianos pelo mundo durante os eventos de natação que participava.

Ele se tornou o embaixador do Havaí nos países em que se apresentava e na Austrália, em 1914, fez uma de suas mais conhecidas apresentações de surfe, causando grande repercussão. Para muitos essa apresentação foi o marco zero do surgimento do surfe moderno.

A popularização do surfe contribuiu para o fortalecimento dos clubes de outrigger no Havaí. Em 1926 as primeiras mulheres começaram a se aventurar no surfe de canoa, e desde então são presença constante em todos os clubes.

Com o passar dos anos e o crescimento exponencial do surfe, essa atividade passou a ser praticada independentemente das bases de outrigger de Waikiki, e a canoagem polinésia, por sua vez, desenvolveu-se de maneira mais modesta através de suas varias vertentes (canoa havaiana, taitiana, neozelandesa) e hoje existem clubes espalhados por todo mundo.

Estas bases, no entanto, nunca perderam sua relevância e ainda hoje são indispensáveis para o fomento de atividades que remetem às raízes desta cultura lúdica praticada no mar pelos povos polinésios.

CLUBES NO BRASIL

Somente no final do século XX a cultura dos clubes de outrigger chegou por aqui. O “Outrigger Rio Club”, fundado em 1999, foi o primeiro clube de Brasil. A partir de então novas bases foram surgindo.

Em 2017, um importante levantamento feito por Eugenio Azevedo, proprietário da Niue Va’a Brasil,  revelou que existiam 117 bases/ clubes de outrigger  (ou Va’a, como recomenda a nomenclatura oficial adotada pela CBVAA) espalhados por todo país, desde o litoral às cidades do interior, divulgando um estilo de vida saudável e integrado aos elementos da natureza.

Estima-se que até o fim de 2018 o número clubes brasileiros atinga a quantidade de 150 bases.

Fontes: hawaiianpaddlesports.com /  encyclopediaofsurfing.com / bishopmuseum.org / smithsonianmag.com

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About the author

Luciano Meneghello

Luciano Meneghello

Luciano Meneghello é Editor-chefe do Aloha Spirit Club. Pioneiro na produção de conteúdo direcionado a esportes de água como SUP, va'a e paddleboard, foi fundador da Revista Fluir Standup e do site SupClub e tem artigos publicados em diversos veículos do segmento, como revista Go Outside, Alma Surf, site Waves, entre outros.


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